Livros em nossas vidas...

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“As pessoas que mais nos...”, diz Valter Hugo Mãe

Sylvia Colombo, na Folha de S.Paulo

Livros podem ser como pessoas. Apesar de achar a própria ideia "ousada", é sobre essa possibilidade que o escritor português Valter Hugo Mãe, 45, discorrerá em suas palestras em São Paulo (31 de agosto) e em Salvador (5 de setembro), dentro do ciclo de conferências "Fronteiras do Pensamento", evento do qual a Folha é parceira. O autor de "A Máquina de Fazer Espanhóis" e "O Filho de Mil Homens", cuja obra no Brasil era editada pela Cosac Naify, agora terá seus livros publicados pela Biblioteca Azul.

Em entrevista à Folha, por Skype, o escritor falou de sua relação com os livros e do novo romance, que se passa no Japão antigo.

Folha - Como serão suas palestras no Brasil?

Valter Hugo Mãe - Partirei da presença de um livro na minha infância para refletir sobre o que penso a respeito da felicidade, que é um tema recorrente nos meus livros. A felicidade não existe sem conter a tristeza. Quero contar minha experiência enquanto autor na busca de uma espécie de redenção, de salvação, a partir da literatura. E questionar até que ponto os livros não são, eles próprios, motivações para a felicidade. Talvez eu vá dizer que os livros de alguma forma representam pessoas e, enquanto estivermos dentro de um espaço carregado de livros, estaremos na verdade no meio de uma multidão.

Por que talvez?

Porque que vou dizer, mas considero ousado (risos). Vou citar alguns autores de que gosto, mas obviamente pressupor que as pessoas entendam que estou falando de estar cercado apenas de bons livros. O foco será nessa honesta sensação que tenho de que, com o tempo, as pessoas que mais nos acompanham na vida talvez sejam livros. No meu caso, as pessoas que mais demoram na minha vida são mesmo feitas de papel.

Você acaba de terminar mais um romance. Pode falar um pouco dele?

Terminei, mas ainda não entreguei. Estou dando a última leitura para mandar hoje mesmo. Neste momento, estou na página 59 (risos). Esse processo é patológico. Estou naquela fase em que começa a depressão pós-escritura. A gente fica tanto tempo meditando sobre um texto que, quando entrega, é quase como sofrer um ato de violência.

Por quê?

Não é porque eu não queira compartilhar, fico ansioso para que as pessoas leiam e me digam o que pensam, fazendo com que eu aprenda algo mais sobre o livro que eu jamais saberia sozinho. Mas essa hora de entregar é uma coisa horrenda (risos), porque nós vínhamos juntos há tanto tempo, e de repente o autor fica para trás. O livro vai e eu fico com aquela angústia porque, obviamente, não posso disciplinar o leitor, então não sei o que vai acontecer. Se o leitor vai ler o livro distraído, ou rapidamente, ou interromper a leitura onde eu acho que não deveria. E ele pode, inclusive, ser burro, e não saber coisas elementares que eu acho fundamentais que um ser humano saiba. Enfim, talvez seja também a minha burrice de autor que está em causa. Fico sem saber se expliquei o suficiente. É uma mistura de insegurança com tristeza. E eu sempre sofro isso de modo performático, então preciso criar uns rituais.

Como assim, pode dar um exemplo?

Ah, eu tenho umas superstições, umas coisas que sempre repito a cada livro. Por exemplo, logo que termino, eu imprimo tudo e coloco essa impressão debaixo de um Galo de Barcelos. O Galo de Barcelos, como você sabe, é um objeto de artesanato tão famoso que simboliza Portugal, uma coisa muito antiga, folclórica. Existe uma superstição aqui, sobretudo na região norte do país, onde eu vivo (no Porto), que diz que nenhuma casa é feliz se não tiver um Galo de Barcelos. E esse foi minha mãe que me deu. É uma coisa boba, porque eu não acredito que o galo dê sorte, mas como foi minha mãe que me deu, acho que, se não fizer isso, estarei ofendendo-a, porque ela me deu o galo convicta de ele tomaria conta de mim.

Sobre o que é seu novo romance?

É uma história que acontece no Japão e conta a história de um artesão, um homem humilde que vive no sopé de uma montanha, perto de Kyoto, no Japão antigo. Tentei buscar um Japão mitológico, não tecnológico e não sofisticado. Esse foi o Japão que me impressionou desde menino, daquele povo esforçado, trabalhador, mas ao mesmo tempo capaz de uma ira, de uma violência.

Conhecer o Japão depois de ter esse Japão mitológico na memória mudou muito sua visão do país?

Sim, acho bonito eles terem conseguido entrar no futuro sem perder a memória. É uma memória endêmica que eles recusam a deixar de lado. Depois de ser um país profundamente bélico, de uma história de agressões, o Japão conseguiu erguer também a sociedade mais cordial do planeta. Há uma aprendizagem diante dessa passagem de uma violência secular para uma pacificação. Imagine, com essa quantidade de gente que hoje habita a ilha, o país implodiria se eles ainda estivessem com os sabres erguidos a matarem-se uns aos outros (risos).

Você dizia que queria passar um tempo numa cidade pequena do Brasil e escrever um livro. É seu próximo projeto?

Não é para já, mas tenho essa vontade, que precede a minha aceitação no Brasil como autor. O Brasil é uma atração minha desde a meninice, mas a minha relação com o país tornou-se tão especial que eu não gostaria que um livro que eu escrevesse sobre o Brasil fosse visto como uma espécie de correspondência fútil. Não quero correr o risco de as pessoas pensarem que escrevi um livro oportunista para que os brasileiros gostem mais de mim. Então preciso que o livro surja e que seja legítimo. Mas vai acontecer, a não ser que eu morra de um câncer fulminante. Bom, você conta sempre que tinha a ideia, na infância, de que iria morrer logo, aos 18, e não morreu. Então, depois que isso não aconteceu, agora acho que não vou morrer mais, então vai dar tempo de escrever o livro sobre o Brasil (risos).

Você tinha uma visão muito crítica da União Europeia, achava que Portugal vinha sendo maltratado. O que achou da saída do Reino Unido?

Acho que colocou um freio no continente. Do modo como estava funcionando, era, sim, uma forma de os grandes manipularem os menores. Mas eu sou um europeísta convicto, e acho que de maneira nenhuma a Europa pode se desfazer. Se isso ocorrer, vai nos enfraquecer ao ponto de nos tornarmos apenas belos museus medievais. Seremos um continente de museus decrépitos. As pedras, a monumentalidade vai estar toda aí, mas as pessoas não vão ter como viabilizar um futuro, só vai existir o passado. Se nos desagregarmos, os países se transformarão em digníssimos lugarejos.