Mãe e filho escritores apostam na literatura para jovens

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Mãe e filho escritores apostam na literatura para jovens

Muitas são as noites agitadas na casa dos Briones, em São Bernardo do Campo, no ABC paulista. Bianca e Athos preferem a madrugada para escrever e sempre são embalados por alguma música. Não raro a personalidade de cada um se metamorfoseia de acordo com o personagem em que estão trabalhando. Vez ou outra, Bianca até sai falando em voz alta exatamente da mesma maneira que imagina que uma de suas crias literárias faria. Enquanto isso, os coelhos Morgana e Lancelot, se não estão na gaiola, procuram se acomodar entre os livros que se espalham por todos os cômodos da residência.

Como-se-fosse-magia-209x300Bianca, 36 anos, é mãe de Athos, 18, que recebeu o nome como uma homenagem um dos protagonistas de “Os Três Mosqueteiros”, de Alexandre Dumas. “Eu tinha uns doze anos quando li o livro e o personagem ganhou meu coração. Decidi no mesmo dia que meu primeiro filho teria esse nome. Eu queria alguém com a mesma força, coragem e integridade. Consegui”, diz a coruja que também tem um outro filho que leva nome literário e já se arrisca na escrita: Arthur, tal qual o lendário rei, que está prestes a completar 11 anos. “Eu sempre debati minhas ideias com meus filhos. Agora eles debatem as deles comigo. É divertido”, conta Bianca sobre como é dividir a atividade com os rebentos.

Ela já é um nome conhecido dos leitores de romances destinados aos chamados “jovens adultos”. Autora de “As Fases de Lua” e da série “Batidas Perdidas”, há pouco lançou pela Gutenberg o "Como se Fosse Magia", no qual apresenta Eva, uma escritora bem-sucedida, com fãs espalhados pelo mundo, mas que passa por um bloqueio criativo. A paralisia é rompida após a personagem, em um lance fantástico, encontrar com uma de suas criações. Athos, por sua vez, estreou este ano com "Muito Mais que o Acaso", no qual narra a história de Victor, garoto da periferia e estudante de escola pública que ganha uma bolsa de estudos do melhor colégio particular de São Paulo para que integre o time de futebol do lugar. A transição entre os mundos, claro, não será simples e o jovem precisará superar o preconceito para que seja feliz na nova empreitada.

Bajulações mútuas - Bianca considera que Eva é a personagem que criou mais parecida consigo (“até a particularidade mais maluquinha), já Athos diz que Victor é “exatamente como eu, só que um pouco melhor no futebol”. A relação do jovem com o esporte, aliás, é intensa. Sofria de depressão quando era mais novo, problema do qual se livrou quando começou a praticar a mahamudra, que define como “ um método de desenvolvimento humano que trabalha com a evolução dos três pilares do ser humano: corpo, mente e espírito. Por ela que faço faculdade de Educação Física, porque quero um dia fazer para alguém o bem que eles fizeram pra mim”.

Acaso-210x300Voltando à escrita, Athos conta que a mãe, já experiente, foi essencial para que driblasse os momentos de bloqueio criativo enquanto trabalhava no primeiro livro e, em um segundo momento, importante para que ele entendesse como funciona o mercado editorial (ela também é tradutora, preparadora, revisora de textos e avalia originais para editoras). Bianca, por sua vez, diz ter adorado que o filho seguisse esse rumo, mas também ficou bastante ansiosa e um pouco angustiada com a opção. “Acho que senti mais medo do que ele. Eu comemoro cada vitória dele como se fosse minha. Saí dando pulinhos pela casa quando a editora avisou que pediria reimpressão do livro dele”.

Em um momento de troca de bajulações, Bianca conta que admira em Athos “a coragem dele escrever em abordar temas tão importantes e muitas vezes deixados de lado”, enquanto ele aprecia o modo “com que ela consegue transmitir a dor” dos personagens. Instigados a também apontarem no que o outro precisa melhorar, saem pela tangente e falam de parte do processo, não do trabalho já finalizado. “Ela poderia ficar mais calma durante a escrita”, opina o filho. “Acho que se eu fosse sugerir algo seria não deixar para escrever tão em cima da data de entrega, mas confesso que já fiz isso algumas vezes”, responde a mãe. E completa: “Aliás, acho que são nesses momentos em que eu não fico calma”.

*Por Rodrigo Casarin, no Página Cinco.