Não há como atrelar o nome de Jesus a discursos de ódio

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A afirmação é de um tradutor da Bíblia

“As denominações cristãs mais conservadoras fazem uma leitura seletiva da ‘Bíblia’ e atêm-se aos aspectos que mais lhes convêm. Em nome de Jesus vemos as coisas mais extraordinariamente contrárias às suas palavras, desde a opulência da igreja católica à teologia da prosperidade dos evangélicos. Vemos também a longa história de repressão e de crueldade do Cristianismo, que é totalmente contrária à mensagem do ‘Novo Testamento’, que é uma mensagem radical de despojamento e de amor”.

É o que pensa o português Frederico Lourenço, tradutor e Doutor em Línguas e Literaturas Clássicas, sobre aqueles que defendem causas conservadoras e atacam minorias utilizando o nome de Jesus como desculpa. Um dos convidados da Flip deste ano, onde dividirá uma mesa com o poeta Guilherme Gontijo Flores na quinta (27), para ele não há como entender o papel histórico do principal personagem do Cristianismo e, ainda assim, destilar o ódio se apoiando em seu nome e em seus ensinamentos.

Fred-lourenco - A posição de Frederico está resguardada por um profundo conhecimento dos textos tidos por muitos como sagrados. Ele é o responsável pela mais recente tradução da “Bíblia” para o português. Seu trabalho contempla os 27 livros do “Novo Testamento” e a versão grega do “Antigo Testamento”, a chamada “Bíblia dos Setenta”, composta por 53 livros escritos primeiro em hebraico e traduzidos para a língua de Sócrates no século 3 a.C, contemplando partes que viriam a ser excluídas do cânone definitivo – o 3º e o 4º livros dos Macabeus, por exemplo.

No Brasil a edição será composta por seis volumes editados pela Companhia das Letras, sendo que o primeiro, “Novo Testamento – Os Quatro Evangelhos”, já está disponível nas livrarias. Além de assinar a tradução, Frederico também é o responsável pela apresentação e notas de contextualização que acompanham a monumental obra.

Apesar da relação íntima com a “Bíblia”, Frederico explica que não é católico há muitos anos, mas um historiador interessado nas raízes da religião. “A ‘Bíblia’ é um importantíssimo documento histórico para compreendermos a natureza do Judaísmo e do Cristianismo”, diz. Mas, olhando pelo prisma da História, pondera: “É certo que ela nos pode criar dificuldades ao tomarmos os seus elementos aparentemente históricos como factuais”.

Bíblia - E como a tradução feita por alguém com esse olhar vem sendo recebida? “A recepção fora das igrejas tem sido excelente. Dentro das igrejas, penso que a opinião a respeito do meu trabalho varia, mas ao mesmo tempo já há muitos cristãos que compreendem que não podemos confundir a interpretação teológica do texto da ‘Bíblia’ com o seu estudo crítico-histórico. Cada coisa tem o seu lugar. Acredito que no Brasil haja abordagens muito diversificadas ao estudo da ‘Bíblia’, mas em Portugal havia um grande défice no estudo crítico-histórico. É esse o meu contributo”.

Aprofundando-se nas discrepâncias entre a versão grega e a hebraica da “Bíblia”, Frederico explica que não há diferenças com relação ao “Novo Testamento”, mas indica algumas divergências “muito interessantes” com relação ao “Antigo Testamento”. “Por um lado, a versão grega é mais extensa, pois tem 53 livros – a hebraica, segundo a divisão cristã, tem 39 livros. Em segundo lugar, o texto hebraico em que a versão grega se baseou era diferente do texto hebraico que conhecemos atualmente. É preciso perceber que o ‘Antigo Testamento’ dos primeiros cristãos era o grego: é por isso que as citações da ‘Escritura no Novo Testamento’ tomam por base a versão grega”.

*Rodrigo Casarin, no Página Cinco.